Como o fiado fideliza clientes sem que você perceba
Você já parou para pensar por que alguns clientes são tão fiéis ao seu comércio? Por que eles passam em frente a dois ou três concorrentes para comprar justamente na sua loja? Em muitos casos, a resposta está em algo que você talvez nem considere uma estratégia de marketing: o fiado.
O crédito informal é, possivelmente, a ferramenta de fidelização mais poderosa que um pequeno comerciante tem à disposição — e a maioria não percebe o quanto ela contribui para manter os clientes voltando.
O princípio da reciprocidade
O psicólogo Robert Cialdini, em seu livro clássico Influência: A Psicologia da Persuasão (1984, Harper Business), descreve seis princípios fundamentais que governam o comportamento humano nas relações sociais e comerciais. Um deles é o princípio da reciprocidade: quando alguém faz algo por nós, sentimos uma obrigação psicológica de retribuir.
Quando você fia para um cliente, está fazendo muito mais do que vender um produto a prazo. Está comunicando: "Eu confio em você. Eu sei que você vai me pagar. Eu estou disposto a assumir um risco por você." Essa mensagem é poderosa e ativa imediatamente o mecanismo da reciprocidade.
O cliente que recebe esse voto de confiança sente-se na obrigação — muitas vezes inconsciente — de retribuir. E a forma mais natural de retribuir é sendo um cliente fiel: comprando sempre no mesmo lugar, indicando para amigos e familiares, e dando preferência ao seu comércio mesmo quando o preço não é o menor da rua.
Fidelidade que nenhum programa de pontos cria
As grandes redes de varejo gastam milhões de reais em programas de fidelidade, cartões de pontos, cashback e aplicativos cheios de funcionalidades. Mas a verdade é que a maioria desses programas gera uma fidelidade fraca e transacional: o cliente é "fiel" enquanto o desconto compensa. Quando outra rede oferece um benefício melhor, ele muda sem pensar duas vezes.
O fiado cria um tipo diferente de fidelidade — uma fidelidade relacional. O cliente não fica com você por causa de pontos ou descontos. Ele fica porque existe uma relação de confiança, respeito e gratidão. Esse tipo de vínculo é muito mais difícil de quebrar.
Pense assim: é fácil trocar o cartão de pontos de um supermercado por outro. Mas é muito mais difícil deixar de comprar no mercadinho do seu Joaquim, que fia para você todo mês, pergunta como estão as crianças e guarda aquela linguiça que você gosta.
O caso da mercearia que parou de vender fiado
Imagine a seguinte situação hipotética, mas muito comum: seu José tem uma mercearia de bairro há 15 anos. Sempre vendeu fiado para os clientes de confiança, e o negócio ia bem. Um dia, depois de levar um calote de R$800, ele decide: "nunca mais vendo fiado para ninguém".
O que aconteceu nos meses seguintes? Estima-se que em situações assim, o comerciante pode perder até 40% dos clientes regulares. Não porque eles fossem maus pagadores — a maioria pagava em dia. Mas porque o fiado era parte da relação. Sem ele, a mercearia do seu José perdeu seu principal diferencial: o crédito de confiança.
Os clientes que dependiam do fiado foram para o concorrente que aceitava. Os que não dependiam, mas gostavam de saber que podiam contar com o fiado se precisassem, também migraram aos poucos. A mercearia do seu José virou mais uma loja genérica — sem o tempero especial do relacionamento.
Transformando o fiado em programa de fidelidade informal
A lição aqui não é que você deve vender fiado para todo mundo sem critério. É que o fiado, quando bem gerenciado, funciona como o melhor programa de fidelidade que existe para o pequeno comércio. Mas como transformar essa prática instintiva em algo mais estruturado?
Conheça seus clientes: Saiba quem são seus melhores clientes, quanto compram, com que frequência pagam. Essas informações são ouro.
Recompense os bons pagadores: Clientes que sempre pagam em dia merecem limites maiores e condições mais flexíveis. Comunique isso a eles — "Dona Maria, como a senhora sempre paga certinho, estou aumentando o limite da senhora." Isso gera orgulho e mais fidelidade.
Use o fiado como diferencial consciente: Pare de ver o fiado como um mal necessário e passe a vê-lo como uma vantagem competitiva. Você oferece algo que o supermercado grande não pode oferecer. Use isso a seu favor.
Registre e acompanhe: Um programa de fidelidade sem dados não funciona. Registre cada transação, acompanhe o comportamento dos clientes e use essas informações para tomar decisões melhores.
O fiado na economia de relacionamento
Vivemos em uma era em que as pessoas estão cansadas de relações impessoais e automatizadas. Elas querem ser tratadas como pessoas, não como números. O fiado é a expressão mais pura da economia de relacionamento: uma transação baseada em confiança pessoal, onde o nome do cliente vale mais do que qualquer score de crédito.
Para o pequeno comércio, isso é uma vantagem enorme. Você pode oferecer algo que a Amazon, o Carrefour e o iFood nunca vão conseguir: uma relação humana, verdadeira e recíproca. E o fiado é o instrumento que materializa essa relação.
Fontes e Referências
- Cialdini, Robert B. Influência: A Psicologia da Persuasão. Harper Business, 1984.
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